Glossário do Projeto

Etnobiologia e a Etnoecologia

             A etnobiologia pode ser definida como o estudo do conhecimento e das conceituações desenvolvidas por qualquer sociedade relacionado à biologia. Esta etnociência abrange o estudo das percepções humanas sobre os organismos vivos e a compreensão de como essas populações as classificam. Adicionalmente, a etnobiologia também pode ser entendida como o campo de estudo do conhecimento biológico e cultural de grupos étnicos acerca de plantas e animais, bem como suas inter-relações.

Do ponto de vista acadêmico, a etnobiologia tem ocupado um papel proeminente em conectar as populações tradicionais com os propósitos da ciência e da academia, reunindo o conhecimento global e local, e também relacionando o meio ambiente às dimensões biológicas e culturais da experiência humana. Dentro desse campo do saber, pode-se dizer que as áreas mais conhecidas são a etnozoologia e a etnobotânica. Não obstante, esta mesma ciência multidisciplinar ao longo do tempo também originou outras áreas críticas do conhecimento, como a etnoecologia, etnomedicina e a etnofarmacologia.

             Particularmente, a etnoecologia é entendida como um campo do conhecimento que apresenta uma abordagem interdisciplinar e tem como intuito pesquisar como as comunidades humanas entendem a natureza através do sistema de crenças, conjuntos de práticas e os conhecimentos ou sistemas cognitivos dessas populações. No entanto, vale ressaltar que a etnoecologia e a etnobiologia não podem ser consideradas campos mutuamente exclusivos, mas complementares e interconectados, nos quais estão relacionados ao conhecimento local e aos esforços de conservação da biodiversidade.

             Estudos etnoecológicos em uma determinada comunidade têm a característica de fornecer o conhecimento ecológico local (CEL) sobre um recurso natural. Este conhecimento etnoecológico visa essencialmente compreender um grupo específico de seres humanos sobre os seus ecossistemas, através da interação entre os organismos e o ambiente, e entre os próprios organismos. Nesse escopo do CEL ainda é importante notar que não apenas os “especialistas” são uma referência ao conhecimento dentro da comunidade, mas é evidente que os fatores de perfil dos entrevistados podem ter a capacidade de influenciar a credibilidade do conhecimento disponível para a comunidade de acordo com os propósitos científicos.

             O CEL dos pescadores, neste contexto, apresenta-se como um parceiro sólido do conhecimento científico, pois pode possuir a capacidade de suplementar os dados da ciência tradicional, onde eles são escassos ou ausentes. Pescadores de pequena escala, em particular, podem fornecer informações detalhadas sobre ecologia e a biologia de espécies de peixes e, assim, auxiliar no manejo convencional dos recursos pesqueiros, bem como gerar hipóteses testáveis ​​para a ciência. Por final, outra ligação importante ao CEL é a sua relevância para a pesca costeira em todo o mundo, onde a informação disponível sobre as populações de peixes ainda não é suficiente para a gestão da pesca.

Referências:

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Estuário e Bacia Hidrográfica do Rio Minho

O rio Minho tem origem na serra da Meira, em Lugo (Espanha), a uma altitude de 750 m, e desagua em Portugal, no oceano Atlântico, entre Caminha e La Guardia. Este rio internacional possui cerca de 300 km, dos quais 230 km situam-se em Espanha (troço internacional), sendo que os últimos 70 km definem a fronteira entre Portugal e Espanha. A área total da bacia hidrográfica do rio Minho é de cerca de 17080 km2 e 5% desta pertence ao território nacional.

O rio Minho está classificado como Sítio de Interesse Comunitário (SIC) e o seu estuário como Zona de Proteção Especial (ZPE), no âmbito do plano setorial da Rede Natura 2000. A Rede Natura 2000 corresponde a uma rede ecológica para o espaço comunitário da União Europeia, cujo objetivo é assegurar a conservação das espécies e dos habitats mais ameaçados da Europa, combatendo assim a perda da biodiversidade.

Apesar do rio Minho ser um dos rios com menos intervenções por parte do homem em Portugal, este Sítio é o habitat de algumas espécies que se encontram em perigo ou com um estatuto vulnerável, sendo um rio especialmente importante para a conservação de várias espécies piscícolas migradoras, como é o caso da lampreia-marinha (Petromyzon marinus), do sável (Alosa alosa) e do salmão (Salmo salar). No que diz respeito ao salmão, por exemplo, em Portugal apenas é possível encontra-lo em duas bacias hidrográficas, sendo a do rio Minho uma delas. Este Sítio é também importante para alguns mamíferos que estão associados ao meio aquático e à vegetação ribeirinha, como a lontra (Lutra lutra). O Sítio possui ainda alguns habitats considerados de grande importância ecológica.

Relativamente à ZPE, o estuário do rio Minho estende-se desde Valença até à foz do rio e, neste percurso, encontram-se habitats húmidos de elevada importância ecológica. É uma área especialmente importante para a avifauna, desde aves aquáticas invernantes a passeriformes migradores. Nesta Zona é possível encontrar espécies como a águia-sapeira (Circus aeruginosus), o garçote (Ixobrychus minutus) e a garça vermelha (Ardeaa purpurea), sendo que todas estas espécies mencionadas, assim como alguns passeriformes migradores, são espécies alvo com orientações de gestão.

  As principais ameaças associadas ao Sítio estão relacionadas com fatores antropogénicos, nomeadamente: a construção de barragens e consequente variação do caudal do rio devido às descargas das barragens a montante; a pesca intensiva e/ou furtiva; a extração de inertes; a poluição da água; a presença de espécies invasoras; e a pressão urbana, entre outras. De referir que é em Caminha, Vila Nova de Cerveira, Valença, Monção e Melgaço que se encontram os maiores focos de pressão urbana.

            No estuário do rio Minho (ZPE), os fatores de ameaça são semelhantes aos que se encontram associados à restante bacia. No entanto, nesta Zona, a pressão urbana/turística tem um impacte acentuado, resultante da construção de estradas, paredões e edifícios variados, de forma as satisfazer as populações. As dragagens no estuário são também uma forte ameaça, principalmente para algumas aves, uma vez que têm como consequência alterações na disponibilidade de alimento. A pressão cinegética, assim como a pesca intensiva e/ou ilegal é também muito intensa nesta Zona, causando fortes perturbações nas populações das espécies.

            De uma forma geral, no Sítio (rio Minho), as orientações de gestão visam a conservação de espécies piscícolas migradoras e outras espécies associadas ao meio aquático e vegetação ripícola. Por outro lado, na Zona (estuário do rio Minho), as orientações de gestão centram-se na conservação de espécies de aves aquáticas e passeriformes migradores.

Referências:

http://www.cadc-albufeira.eu/pt/cuencas-hidrograficas/cuenca-minio/

http://www2.icnf.pt/portal/pn/biodiversidade/rn2000/resource/doc/sic-cont/minh

http://www2.icnf.pt/portal/pn/biodiversidade/rn2000

http://www2.icnf.pt/portal/pn/biodiversidade/rn2000/resource/doc/zpe-cont/minhcour

Biologia do Sável

O sável (Alosa alosa) é uma das espécies de peixe com maior importância económica na Europa. No entanto, as suas populações encontram-se em risco, uma vez que o número de exemplares tem vindo a diminuir significativamente. Esta diminuição está, maioritariamente, relacionada com fatores antropogénicos (fatores humanos). O sável trata-se de uma espécie migradora anádroma ou seja, os exemplares desta espécie nascem em rios, passam a sua vida adulta no mar e regressam aos rios para se reproduzirem, de forma a completarem o seu ciclo de vida.

O sável pertence à família Clupeidae, assim como a sardinha, por exemplo. Os exemplares desta espécie apresentam um corpo fusiforme, comprimido lateralmente, uma cabeça larga e alta e também lateralmente comprimida (Fig.1). Estes peixes apresentam grandes dimensões na idade adulta, podendo atingir 70 cm de comprimento (existem registos de comprimentos superiores) e um peso superior a 4.0 kg. Normalmente, os machos apresentam dimensões mais reduzidas que as fêmeas.

O sável inicia o seu ciclo de vida nos rios, sendo que a desova ocorre no leito dos mesmos, em zonas pouco profundas (menos de 1.5 m de profundidade) e de constituição arenosa ou de cascalho. Dependendo da temperatura da água, os ovos eclodem após 3 a 8 dias. Após a eclosão, as larvas de sável alimentam-se de zooplâncton e larvas de dípteros, durante 4 a 5 meses. Após esta fase, as larvas, agora designadas por alevins, migram para os estuários, onde continuam a alimentar-se de zooplâncton mas também de larvas e adultos de insetos, sedimentos, material vegetal e ainda crustáceos. O sável vive nestas águas salobras durante 4 a 6 meses, migrando de seguida para o mar, no final da Primavera. No mar, o sável vive em locais de grande profundidade, onde exibe um comportamento gregário (vive em grupos), e alimenta-se de zooplâncton e alguns peixes de menor porte. Entre os 4 e os 6 anos, o sável atinge a sua maturidade sexual e inicia a sua migração reprodutora, regressando ao local onde nasceu (no rio). Durante a migração reprodutora, o sável não se alimenta. Alguns adultos, após a reprodução, regressam ao mar até à época de reprodução seguinte, no entanto, a maioria acaba por morrer após a desova.

Em Portugal, o sável possui o estatuto “em perigo”, de acordo com o Livro Vermelho dos Vertebrados de Portugal. A justificação para esta classificação está relacionada com o facto das populações desta espécie terem sofrido, nos últimos 15 a 18 anos, uma redução de 50% no número de exemplares adultos, prevendo-se ainda que esta redução possa atingir 70% nos próximos 15 a 18 anos. Adicionalmente, atualmente, o sável possui uma área de ocupação bastante reduzida (menor que 70 km2), verificando-se um decréscimo continuado da mesma, e uma fragmentação elevada das suas populações. Esta espécie ainda pode ser encontrada nas bacias hidrográficas dos rios Minho, Lima, Vouga, Mondego, Tejo e Guadiana. No rio Guadiana, a população é considerada residual. Ocasionalmente, podem ser encontrados exemplares desta espécie na bacia hidrográfica do rio Douro, contudo, estes já não constituem populações viáveis devido à existência de várias barragens no percurso deste rio e que, consequentemente, impedem a migração e reprodução dos indivíduos desta espécie.

No rio Minho, o sável possui um “papel” cultural bastante relevante, sendo bastante apreciado a nível gastronómico e possuindo um papel importante na economia local. Existem também evidências de que a população de sável no rio Minho é uma das mais importantes no limite sul da sua distribuição atual.

O sável está abrangido por legislação nacional e internacional, com o objetivo de conservar a espécie. Parte do rio Minho, por exemplo, foi designado para a lista nacional de Sítios de Interesse Comunitário (SIC), de acordo com a Diretiva Habitats, devido à presença do sável, entre outro fatores. No entanto, ainda são escassas as medidas de gestão dirigidas à espécie e, ao longo do tempo, tem-se verificado uma degradação da qualidade dos habitats, sendo estes fatores prejudiciais à sobrevivência e reprodução do sável.

De forma a conservar o sável, é necessário assegurar, por exemplo, a continuidade longitudinal dos rios, que fica comprometida com a construção de barragens. De facto, a construção de barragens é, atualmente, a ameaça mais séria para os peixes reprodutores, uma vez que interrompem a rota migratória dos mesmos, podendo impedir a sua reprodução. Assim, a conservação desta espécie passa pela implementação de passagens para peixes. A poluição aquática, a sobre-exploração dos recursos hídricos, a extração de inertes e a pesca furtiva correspondem a outras ameaças relevantes para esta e outras espécies.

De uma forma geral, a conservação desta espécie exige, entre outras medidas, campanhas de sensibilização do público em geral e também das comunidades piscatórias ribeirinhas relativamente à sua importância ecológica, económica e cultural.

Referências:

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http://www2.icnf.pt/portal/pn/biodiversidade/patrinatur/lvv/resource/doc/peix/alosa

http://www2.icnf.pt/portal/pn/biodiversidade/rn2000/resource/doc/rn-plan-set/peix/alo-alosa

http://www2.icnf.pt/portal/pn/biodiversidade/rn2000/resource/doc/sic-cont/minh

https://www.fishbase.se/summary/Alosa-alosa.html

Biologia da Lampreia

A lampreia-marinha (Petromyzon marinus) é uma das espécies mais apreciadas da gastronomia portuguesa e, portanto, é uma espécie com um valor económico bastante elevado. Tal como já foi referido anteriormente, trata-se de uma espécie migradora anádroma ou seja, os exemplares desta espécie nascem em rios, passam a sua vida adulta no mar e regressam aos rios para se reproduzirem, de forma a completarem o seu ciclo de vida.

A Lampreia-marinha pertence à classe dos ciclóstomos e é um vertebrado aquático semelhante à maioria das espécies de peixe (Fig.1). No entanto, tem a particularidade de não possuir mandíbulas. A boca funciona como uma espécie de ventosa, com uma forma circular e coberta de dentes cónicos. Estas características são essenciais para a sua alimentação, uma vez que se trata de uma espécie hematófaga parasita, alimentando-se, na sua fase adulta, do sangue de outros peixes marinhos.

A lampreia-marinha inicia o seu ciclo de vida nos rios, em “ninhos” construídos pelos progenitores, geralmente em zonas pouco profundas de cascalho e areia e onde a velocidade da corrente é reduzida. Após 18 estádios embrionários, com uma temperatura da água aproximada de 22 °C, os exemplares de lampreia marinha, emergem do ninho e migram para jusante do ambiente onde foi realizada a postura, até às zonas de remanso (trecho de rio em que não há corrente apreciável) onde se enterram (camas de amocetes). Durante esta fase larvar, a lampreia-marinha é normalmente designada por amocete (Fig. 2). Nesta fase, os amocetes passam a maior parte do tempo enterrados em sedimentos finos, alimentando-se de microorganismos e, essencialmente, de partículas de matéria orgânica em suspensão, como algas e diatomáceas, tendo uma alimentação filtradora. Esta fase do ciclo de vida da lampreia-marinha pode prolongar-se por vários anos, podendo variar entre os 4 a 11 anos (este período pode variar, consoante os autores), após a qual ocorre um período de metamorfose. Durante a metamorfose, os amocetes passam a juvenis, sendo esta transição caracterizada pelo aparecimento e desenvolvimento dos olhos, o desenvolvimento do aparelho bucal e pelo crescimento das barbatanas dorsais, ficando estas evidenciadas.

Após a metamorfose, a lampreia-marinha está preparada para iniciar a sua migração para o meio marinho, onde vai adotar uma alimentação hematófaga até completar a sua maturação sexual, durante 2 a 3 anos.

Após o período de crescimento no mar, a lampreia-marinha inicia a sua migração reprodutora nas principais bacias portuguesas no final de Dezembro/início Janeiro, com um pico em Fevereiro/Março, prolongando-se até Maio/Junho. Nos rios, a lampreia-marinha constrói os ninhos para a sua descendência, reproduz-se e morre após a postura.

Em Portugal, a lampreia-marinha encontra-se com o estatuto “vulnerável”, de acordo com o Livro Vermelho dos Vertebrados de Portugal, por ter uma área de ocupação reduzida (menor que 100 km2) e fragmentação elevada das suas populações (ocorrem em menos de dez bacias hidrográficas). Relativamente à área de ocupação, verifica-se ainda um decréscimo continuado da mesma, associado a uma degradação da qualidade do habitat dulçaquícola. Esta espécie pode ser encontrada nas principais bacias hidrográficas a norte do rio Sado: Minho, Lima, Cávado, Vouga, Mondego, Tejo e Guadiana.

No rio Minho e em particular na sua foz, realiza-se com maior intensidade a pesca da lampreia-marinha. A captura de lampreia-marinha no rio Minho é bastante tradicional para os pescadores profissionais e artesanais, dado o seu valor gastronómico. Neste rio, entre Janeiro e Maio, são capturadas anualmente grandes quantidades de lampreia comparativamente a outros rios ibéricos, contribuindo para o sustento económico das comunidades piscatórias, portuguesas e espanholas, que exploram este recurso.

Apesar da pesca desta espécie no Rio Minho ser regulamentada, a sobrepesca e a pesca ilegal não deixam de ser uma ameaça relevante para estes exemplares. Assim como a construção de barragens e açudes (que interferem com as migrações e com os regimes dos caudais, por exemplo), a extração de inertes e a poluição, entre outras ameaças.

Concluindo, ainda há muito por fazer no que toca à conservação da lampreia-marinha e à educação das populações relativamente à sua importância ecológica, cultural e económica.

Referências:

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http://www2.icnf.pt/portal/pn/biodiversidade/rn2000/resource/doc/rn-plan-set/peix/pet-marinus

http://www2.icnf.pt/portal/pn/biodiversidade/patrinatur/lvv/resource/doc/peix/petromy-mar

PEIXES MIGRADORES

ESPÉCIES DIÁDROMAS

A diversidade de espécies de peixes inclui as que apresentam migrações entre ecossistemas de água doce (dulçaquícolas, rios) e de água salgada (marinhos) [e as que apresentam migrações entre ecossistemas de água salgada (marinhos) e de água doce (dulçaquícolas, rios)]. Espécies como o salmão do atlântico (Salmo salar), a enguia-europeia (Anguilla anguilla), o sável (Alosa alosa) e a lampreia-marinha (Petromyzon marinus), são algumas das mais conhecidas (Espécies diádromas: espécies migradoras obrigatórias tendo como objetivo a reprodução).

Os peixes migradores são capazes de realizar distâncias curtas ou longas, dependendo da espécie, diariamente ou sazonalmente, seja para completar os seus ciclos de vida, seja para alimentação, refúgio ou para reprodução. O salmão, por exemplo, regressa ao local onde nasceu, no rio, para desovar, após passar a sua fase de crescimento no mar (Espécies anádromas: vivem o estado adulto em meio marinho e migram para os rios para aí se reproduzirem). Já as enguias nascem no mar e percorrem grandes distâncias para completar o seu ciclo de vida em rios (Espécies catádromas: vivem o período adulto nos rios e migram para o mar para aí se reproduzirem).

De referir que os estuários possuem um papel bastante relevante para as espécies diádromas, uma vez que fazem parte das rotas migratórias das mesmas. Existem espécies marinhas e dulçaquícolas para as quais os estuários são destino das migrações sazonais, refúgio e local de alimentação, bem como para reprodução e “berçário” para as larvas e juvenis.

Muitas das espécies migradoras de peixes em Portugal possuem um enorme interesse económico, sendo bastante apreciadas pelos portugueses. No entanto, algumas destas espécies tão apreciadas encontram-se vulneráveis, como é o caso da lampreia-marinha. As migrações, por si só, exigem um gasto energético elevado por parte dos peixes, de forma a ultrapassarem obstáculos naturais. Contudo, os maiores obstáculos para estes peixes são os de origem humana. A construção de barragens e açudes, entre outros, pode provocar a fragmentação e perda de habitats. Nestes casos, torna-se essencial a implementação de sistemas de transposição de barragens, de forma a que estes peixes consigam completar a sua rota migratória. A poluição das massas de água e a pesca furtiva são outras das ameaças mais relevantes para estas espécies.

Apesar dos peixes diádromos corresponderem a menos de 1% das espécies piscícolas conhecidas atualmente, a sua importância ecológica e económica é bastante elevada. Assim sendo, torna-se imprescindível proteger estas espécies, o que só é possível incluindo as populações nos planos de conservação das mesmas.

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https://www.quercus.pt/comunicados/2009/marco/963-os-peixes-migradores-no-vouga-e-a-pesca-ilegal

http://www2.icnf.pt/portal/pn/biodiversidade/patrinatur/lvv/lista-peixes

http://www2.icnf.pt/portal/pn/biodiversidade/patrinatur/lvv/resource/doc/peix/petromy-mar

http://www2.icnf.pt/portal/pn/biodiversidade/patrinatur/lvv/resource/doc/peix/salm-sal

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ESPÉCIES ANÁDROMAS

Às espécies piscícolas cuja fase de crescimento e alimentação ocorre no mar, seguindo-se uma fase de reprodução e eclosão em rios, dá-se a designação de anádromas (Fig.1). Estas espécies migradoras (diádromas) completam o seu ciclo de vida no rio, ao contrário das espécies catádromas, cuja reprodução ocorre no mar.

As espécies anádromas encontram-se maioritariamente distribuídas por zonas de grandes latitudes. O porquê deste padrão de distribuição ainda não é totalmente conhecido no entanto, pensa-se que alguns dos fatores a contribuir para este padrão poderão ser a preferência das espécies por temperaturas mais reduzidas e o facto da produtividade dos oceanos ser maior nestas latitudes, comparativamente à dos rios. Uma maior produtividade traduz-se numa maior disponibilidade de alimento para os juvenis em fase de crescimento.

Em Portugal encontram-se diversas espécies anádromas bastante conhecidas, como a lampreia marinha (Petromyzon marinus), o sável (Alosa alosa), o salmão do atlântico (Salmo salar) e a truta-marisca (Salmo trutta). Estas duas últimas espécies estão classificadas como “criticamente em perigo”, uma vez que as suas populações sofreram reduções de 98% no número de indivíduos adultos nos últimos 10 a 21 anos, no caso do salmão, e 10 a 15 anos, no caso da truta. O salmão e a truta apenas podem ser encontrados nos rios Minho e Lima, apesar de em números muito reduzidos. A construção de barragens e/ou açudes, a exploração dos recursos hídricos e a poluição a que os rios são sujeitos são os principais fatores de ameaça a estas espécies.

Referências:

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ESPÉCIES CATÁDROMAS

As espécies piscícolas catádromas correspondem a todas as espécies diádromas (migradoras) cuja fase de crescimento e alimentação ocorre no rio até à vida adulta, seguindo-se uma fase de reprodução e eclosão no mar (fig.1).

Existem pelo menos 56 espécies de peixe classificadas como catádromas, sendo este tipo de migração mais frequentemente observado em latitudes tropicais. Esta observação pode estar relacionada com o facto de os rios apresentarem maior produtividade que os oceanos, nestas latitudes. Consequentemente, nos rios existe maior disponibilidade de alimento para os juvenis durante a sua fase de crescimento.

No nosso país, a enguia-europeia (Anguilla anguilla) é um exemplo de uma espécie catádroma que pode ser encontrada em latitudes temperadas. Todos os indivíduos desta espécie nascem no Mar dos Sargaços (a nordeste do Mar das Caraíbas) e migram até aos rios continentais europeus, onde se vão alimentar e crescer até atingirem a fase adulta. Para completarem o seu ciclo de vida voltam a atravessar o oceano atlântico para regressarem ao local onde nasceram, o Mar dos Sargaços, onde se reproduzem e desovam. Esta espécie em particular encontra-se em perigo, devido a várias ameaças. Muitas delas são ameaças comuns a outros peixes migradores, como a construção de barragens e a poluição aquática. Também já foi verificado que as alterações climáticas, mais especificamente o aumento da temperatura dos oceanos, em conjunto com a acidificação dos mesmos, podem vir a alterar significativamente a sobrevivência e o comportamento migratório dos juvenis de enguia-europeia. Contudo, atualmente, uma das principais ameaças está relacionada com a pesca ilegal dos juvenis desta espécie, comumente conhecido como meixão. Em Portugal, apenas é permitida a pesca de meixão no rio Minho.

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http://www2.icnf.pt/portal/pn/biodiversidade/patrinatur/lvv/resource/doc/peix/anguilla

ESTUÁRIOS

Os estuários correspondem a áreas de transição entre águas doce e salgada. A ligação ao mar pode ser permanente ou periódica. Consequentemente, este tipo de ecossistema sofre uma grande influência das marés, estando sujeito a fortes variações nos parâmetros físicos e químicos da água (como por exemplo, oscilações na salinidade, nutrientes, temperatura e transparência).

O facto de estes ecossistemas serem constituídos por água doce, salgada e salobra (mistura entre água doce e salgada) torna-os habitats únicos para muitos organismos. Contudo, é necessária uma adaptação fisiológica das espécies para que possam suportar os gradientes de salinidade do meio que as rodeia. Assim sendo, nos estuários é comum existir uma reduzida diversidade de espécies, porém, as que existem, encontram-se em elevado número de indivíduos.

É possível encontrar nestes ecossistemas diversas espécies naturais do nosso país. Por exemplo, a salamandra-de-pintas-amarelas (Salamandra salamandra), a garça-real (Ardea cinerea), o polvo-comum (Octopus vulgaris), a lontra-europeia (Lutra lutra) e a conhecida e muito apreciada lampreia-marinha (Petromyzon marinus).

Por serem áreas de habitat e desova de muitas espécies de peixe com grande interesse socioeconómico (não só a lampreia-marinha, mas também, o salmão e a enguia-europeia), a atividade piscatória está fortemente associada às mesmas. Por outro lado, muitos destes locais encontram-se ameaçados quer pela ocupação das áreas por parte do Homem, quer pela sua utilização para atividades de lazer. No limite, podem também ocorrer situações de sobre-exploração dos recursos.

Assim sendo, é de extrema importância conhecer estes locais e saber como podemos protege-los.

Referências:

Pinto, R., Patrício, J., Neto, J. M., Salas, F., & Marques, J. C. (2010). Assessing estuarine quality under the ecosystem services scope: ecological and socioeconomic aspects. Ecological Complexity7(3), 389-402.

Pritchard, D. W. (1967). What is an estuary: physical viewpoint. American Association for the Advancement of Science.

http://cidadania.fapas.pt/especies-estuarios/