Glossário do Projeto

DIVULGAÇÃO E EDUCAÇÃO AMBIENTAL

A crescente complexidade da sociedade atual, seja em que contexto geográfico for, convoca a urgência de se praticar uma educação ambiental (EA) problematizadora da cultura e valores dominantes desta mesma sociedade. A confluência de fatores inerentes ao contexto de uma bacia hidrográfica como a do Rio Minho é um bom exemplo dessa complexidade. Assim, define-se aqui a EA como um veículo para se encontrar alternativas de resolução dos problemas inerentes a essa complexidade, nomeadamente através da integração das dimensões biofísica e sociocultural local. Em termos de estratégias, são várias as recomendações internacionais no sentido do acesso à informação ou divulgação e participação (Convenção de Aarhus) e da promoção da EA.

Tal integração na EA encontra, nas estruturas de âmbito local – equipamentos para a educação ambiental (EqEA), uma ferramenta particularmente adequada. Com efeito, esses recursos heterogéneos de educação não formal são considerados vantajosos por vários fatores: têm uma dimensão estratégica (próximos da população), facilitando o compromisso no meio social e natural do seu entorno (dinamizadores sociais); potenciam a abordagem de uma grande variedade de temáticas e metodologias pedagógicas; permitem a conjugação da vertente educativa com a vertente de lazer; permitem valorizar e cruzar os saberes locais e leigos com os científicos, entre outras vertentes.

Os EqEA obedecem a sete critérios ou elementos que, por sua vez, estão interligados entre si, como se observa na figura 1:

Como se observa na figura 1, o elemento avaliação deve ser relativo não apenas ao projeto educativo mas também a elementos como, as instalações, equipa educativa, recursos, tipologias de usuários e opções de gestão.

É precisamente esta caraterística de dinamização social que se pode encontrar no EqEA – Aquamuseu do Rio Minho – o qual, desde a sua génese, tem envolvido intensamente a população, nomeadamente a comunidade de pescadores deste rio; a comunidade escolar; a comunidade científica de ambos os lados da fronteira.

O caráter de dinamização social do Aquamuseu traduz-se, especificamente, no objetivo de promoção e divulgação do património natural e cultural associado à bacia hidrográfica do rio Minho e é associado a três grandes áreas – didático-cultural, turística e investigação científica. Estas áreas são desenvolvidas com o intuito de valorizar o património natural e cultural, resultando estratégias.

Assim, os saberes locais e leigos são integrados na própria investigação científica realizada neste equipamento, visando um reequilíbrio do ecossistema e uma qualidade de vida em sintonia com os recursos naturais desta zona do Minho.

Referências:

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ETNOBIOLOGIA E A ETNOECOLOGIA

A etnobiologia pode ser definida como o estudo do conhecimento e das conceituações desenvolvidas por qualquer sociedade relacionado à biologia. Esta etnociência abrange o estudo das percepções humanas sobre os organismos vivos e a compreensão de como essas populações as classificam. Adicionalmente, a etnobiologia também pode ser entendida como o campo de estudo do conhecimento biológico e cultural de grupos étnicos acerca de plantas e animais, bem como suas inter-relações.

Do ponto de vista acadêmico, a etnobiologia tem ocupado um papel proeminente em conectar as populações tradicionais com os propósitos da ciência e da academia, reunindo o conhecimento global e local, e também relacionando o meio ambiente às dimensões biológicas e culturais da experiência humana. Dentro desse campo do saber, pode-se dizer que as áreas mais conhecidas são a etnozoologia e a etnobotânica. Não obstante, esta mesma ciência multidisciplinar ao longo do tempo também originou outras áreas críticas do conhecimento, como a etnoecologia, etnomedicina e a etnofarmacologia.

Particularmente, a etnoecologia é entendida como um campo do conhecimento que apresenta uma abordagem interdisciplinar e tem como intuito pesquisar como as comunidades humanas entendem a natureza através do sistema de crenças, conjuntos de práticas e os conhecimentos ou sistemas cognitivos dessas populações. No entanto, vale ressaltar que a etnoecologia e a etnobiologia não podem ser consideradas campos mutuamente exclusivos, mas complementares e interconectados, nos quais estão relacionados ao conhecimento local e aos esforços de conservação da biodiversidade.

Estudos etnoecológicos em uma determinada comunidade têm a característica de fornecer o conhecimento ecológico local (CEL) sobre um recurso natural. Este conhecimento etnoecológico visa essencialmente compreender um grupo específico de seres humanos sobre os seus ecossistemas, através da interação entre os organismos e o ambiente, e entre os próprios organismos. Nesse escopo do CEL ainda é importante notar que não apenas os “especialistas” são uma referência ao conhecimento dentro da comunidade, mas é evidente que os fatores de perfil dos entrevistados podem ter a capacidade de influenciar a credibilidade do conhecimento disponível para a comunidade de acordo com os propósitos científicos.

O CEL dos pescadores, neste contexto, apresenta-se como um parceiro sólido do conhecimento científico, pois pode possuir a capacidade de suplementar os dados da ciência tradicional, onde eles são escassos ou ausentes. Pescadores de pequena escala, em particular, podem fornecer informações detalhadas sobre ecologia e a biologia de espécies de peixes e, assim, auxiliar no manejo convencional dos recursos pesqueiros, bem como gerar hipóteses testáveis ​​para a ciência. Por final, outra ligação importante ao CEL é a sua relevância para a pesca costeira em todo o mundo, onde a informação disponível sobre as populações de peixes ainda não é suficiente para a gestão da pesca.

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